As habilidades incríveis de pessoas com Síndrome Savant


A Síndrome Savant, termo em francês que significa “sábio”, é um distúrbio psíquico raro cujas características principais estão associadas aos deficts intelectuais. O indivíduo pode apresentar dificuldade em se comunicar, em compreender o que lhe é transmitido e em estabelecer relações interpessoais. No entanto, são seres humanos que possuem talentos e habilidades, principalmente ligados à memória, que é extraordinária.


Aliás, a memória tem duas faces nessa história: as pessoas com a síndrome guardam tudo e não conseguem esquecer nada, dentro de seu universo de informações.


Ainda não se sabe, precisamente, o que causa a Síndrome Savant, mas existem algumas hipóteses. Uma delas é de que pode ser genética e/ou congênita, como ocorre no caso da rubéola materna, que muitas vezes leva ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). Outros estudos apontaram raros casos em que as extraordinárias habilidades ligadas à memória emergem na vida adulta, fruto de um traumatismo craniano.


Embora não tenha cura, o tratamento para a síndrome ajuda a controlar os sintomas, melhorando a qualidade de vida de seus portadores.


Na conversa de hoje, com a professora de Artes, especializada em Arte Educação para pessoas com deficiência, mestre e doutora em Psicologia, Lucia Reily, vamos falar do tema, mas, especialmente, do potencial das pessoas que vivem com essa síndrome.


Professora Lucia publicou, em 2001, o livro “Armazém de Imagens” (editora Papirus) em que relata o estudo de casos de adolescentes nessa situação, sendo um deles um ex-atendido da Adere, Frederico, já falecido, chamado carinhosamente de Fred.


O que interessou à professora, especialmente, foi analisar as aptidões incríveis de artes que esses indivíduos, em boa parte, apresentam. No caso aqui, a análise focou as artes plásticas, mas se sabe que música é outra área em que muitos deles podem transitar com fluidez. Alguns tocam piano, outros se dedicam à escultura ou pintura, como era o caso do Fred.


“A Síndrome Savant é uma grande incógnita para os especialistas, incluída na síndrome de Asperger. A maioria escolhe temas de interesse aos quais, se estimulados, podem se dedicar com prazer”, explica.


Vale ressaltar que pessoas com essa síndrome podem apresentar outras deficiências intelectuais como físicas. “O Fred, por exemplo, por causa da rubéola gestacional, nasceu surdo e tinha problemas de visão, fruto de um glaucoma, além de atraso na fala, o que dificultava a comunicação. As dificuldades motoras e cognitivas também existem em muitos casos, mas essas pessoas têm, como chamamos, as ilhas de habilidades”, conta a professora.


Fred era um artista. Ele desenhava suas telas sem traçá-las antes, em lápis ou grafite. Ou seja, não fazia ensaios. Pegava as tintas e pintava paisagens grandes, pequenas, muito coloridas, retratando, em sua maioria, o ambiente do circo, uma predileção que não tinha origem identificada. Os traços eram firmes e criativos.


“Frederico apresentava alguns comportamentos do Transtorno do Espectro Autista (TEA), como a dificuldade de aceitar mudanças de rotina e a prática de comportamentos ritualísticos. Ao mesmo tempo, as suas obras tinham eixos de coesão, normalmente pautados na ordem cronológica do calendário. Era autodidata e acreditava que a boa pintura não podia deixar espaços vazios, sempre alternando figuras ou marcas decorativas, com um tratamento minucioso e cuidadoso em cada uma delas.”


Para a professora, Frederico, à época com 20 anos, “utilizava a pintura como maneira de representar, compreender, organizar seus conhecimentos e interagir no mundo.”


A memória de Fred era incrível, típica de quem tem a Síndrome Savant. “Nunca vou me esquecer do presente que ele me deu: uma lista com todas as produções que fez no tempo que trabalhamos juntos para o estudo. Em uma coluna ele colocou o tema da obra e, na outra, a data de quando ele a fez, reforçando como a questão cronológica era estruturante para ele.” Ao receber a lista, Lucia foi analisar se as datas e temas batiam com seus registros. Adivinhe? Todas corretas.


Lucia foi à Inglaterra, onde havia especial interesse da medicina em registrar casos enigmáticos de deficiência intelectual relacionada a habilidades. “Na literatura que consultei, a primeira pessoa com a síndrome, que teve sua história analisada, era de 1730. Um homem que desenhava muito bem gatos. Eram impressionantes e por isso a realeza comprava suas obras. Segundo os dados, ele não tinha autismo, mas um distúrbio na tireoide.” Outro relato, de 1858, fala de um jovem que estava internado desde os 15 anos em uma escola especial residencial, chegando a falecer lá. Ele tinha habilidades incríveis com esculturas, especialmente barcos. Um designer e tanto. Dentre suas produções, o rapaz desenhou toda a sua trajetória como se fosse uma história em quadrinhos. Era surdo e com TEA e, ao mesmo tempo, apresentava marcas de problemas psiquiátricos.


“Só nos anos 70 é que a literatura trata mais do contexto dessas pessoas, de suas famílias e situação, para entendê-las e acolhê-las melhor”, conta ela.


Um lado obscuro também marcou a trajetória desses indivíduos, como a crueldade de cuidadores ou interesseiros que usavam tais habilidades para proveito próprio, explorando a pessoa com a síndrome, muita vezes expondo-a publicamente, como atração de circo, por exemplo.


Algumas instituições também acabavam por usar as habilidades como forma de estabelecer castigos. “Um caso é de um jovem que esculpia cavalos. Tinha essa obsessão e, por isso, não se dedicava a outras atividades, como arrumar a cama. Para que ele cumprisse suas tarefas, os cuidadores não o deixavam fazer seu trabalho artístico. Ele ficou tão aturdido que foi para um espaço aberto unhar o asfalto para construir suas obras.”


Por isso, a professora defende, como a Adere também, a necessidade de criar oportunidades para descobrir e exercitar essas habilidades. Além de fortalecer a autoestima das pessoas, porque são reconhecidas e percebidas por meio de seus talentos, podem usufruir deles como forma de ampliar sua renda econômica e de suas famílias, em acordos justos, nada exploratórios, sempre priorizando o bem-estar presente e futuro do indivíduo com a síndrome.


“O contexto influencia muito o bem-estar dessas pessoas. Famílias, profissionais, cuidadores e a sociedade como um todo. Em São Paulo, por exemplo, existem muitos museus, teatros e outros espaços culturais que recebem a pessoa com deficiência, mas ainda são poucos perto das necessidades e expectativas desses indivíduos, muitos sem a chance de expor seus dons e habilidades artísticos que também contribuem para uma sociedade mais humana e inclusiva.”



*Este artigo foi elaborado com base na conversa com Lucia Reily e no livro de sua autoria, “Armazém de Imagens” (editora Papirus). Todas as informações aqui relatadas foram aprovadas pela especialista.



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