Depoimento Dr. Zan Mustacchi para a Adere



“Das pessoas que conhecemos, quantas conseguiram realizar seus objetivos e sonhos? Todos visam um crescimento, querem melhorar sua perspectiva de vida e, em muitos casos, também desejam contribuir ao bem-estar de outros indivíduos. A pergunta-chave é qual o fator indutor para que as pessoas realizem seus desejos? A resposta é muito simples: oportunidades. Posso afirmar que, sem oportunidades, ninguém é o que é. No entanto, elas podem favorecer ou desfavorecer a pessoa. Saber o que é bom e o que não é exige discernimento, com base no conhecimento, para entender se determinada oportunidade é ou não pertinente àquele momento ou situação. Esse predicativos não são de domínio de todas as pessoas que apresentam comprometimento cognitivo. Por isso precisam de um fator ambiental que possa apoiá-los na escolha das teóricas melhores opções, o que acaba, também, repercutindo no indivíduo mediador.

Se considerarmos a população brasileira no seu contexto econômico e sociocultural, que são fatores que se influenciam mutuamente, percebe-se que quando não se tem o suporte econômico, as possibilidades nutricionais e de informação são limitadas, impactando as capacidades intelectuais. A pessoa nesse contexto não tem uma referência melhor para modelar sua vida. Há uma progressiva deterioração do conteúdo que se domina quando ele se aplica ao indivíduo com comprometimento intelectual, que pode ter nascido de parto prematuro, a mãe não ter se alimentado adequadamente durante a gestação, não ter sido amamentado, por exemplo.

Essa pessoa cresce, é semialfabetizada, jovem ainda, e tem um filho que nasce com Síndrome de Down. Quais instrumentos ela tem para utilizar com esse filho?

Este é o cenário: menos de 2% da população brasileira ganha mais de dez salários mínimos. Dessa porção, 80% ganham entre 10 e 20 salários mínimos e os demais 20%, mais de 20 salários mínimos. Onde estão os outros 80% da população?

A dissociação econômica pode ser um dos principais motivos de carência de oportunidades e da falta de cultura para ter informações qualificadas e discernimento.

A pessoa com Síndrome de Down, que nasce e vive nesse contexto, provavelmente não terá suporte. Seus pais verão indivíduos com a síndrome na TV, como artistas, professores, empresários. Vão se perguntar, e talvez acreditar, que seus filhos também chegarão lá. No entanto, será que a sociedade vai deixar? Ou só chega lá quem tem suporte para isso?

Acredito que a pessoa com Síndrome de Down, que tenha toda estrutura, consiga fazer uma faculdade, ser um empresário, mas isso não significa que ele domine os conteúdos para isso. Vale lembrar que nossa sociedade, reforçada pelas ações dos governos dos últimos anos, valoriza o diploma e não o real conhecimento. Os pais querem resolver o futuro desses filhos com comprometimento intelectual. Para eles, não importa se sabem ou não sabem os conteúdos.

Para permanecer e crescer no mercado de trabalho, qualquer profissional precisa se capacitar continuamente, estar atualizado. É isso que o diferencia e o faz capaz de competir com seus pares. O down poderá competir com um número mais restrito de pessoas no mesmo nível de compreensão (com ou sem down) e, muitas vezes, conseguirá a vaga para determinado serviço, porque pode se sair melhor na prova, por exemplo. Mas, no dia a dia, será que as relações serão positivas? Como será sua conduta diante de uma palavra mais ríspida ou uma crítica destrutiva? Costumo dizer que o Down devolve aquilo que recebe – e em dobro. Essa ideia de que ele é sempre simpático, alegre e bonzinho é ilusória. Se o ambiente onde ele vive tiver afeto, amor, compreensão, diálogo, ele será assim nas suas relações. Se não, ele será mal humorado, agressivo, seguindo as referências presentes. Por isso, dizemos que o down não esquece o que aprende, repetindo o que é bom e o que é ruim.

Este tema é muito árido, pesado, difícil de ser tratado, mas é a realidade. Temos 350 mil cidadãos com Síndrome de Down no Brasil. A cada ano nascem cerca de 8 mil. Metade deles tem cardiopatia congênita, sendo que metade destes precisam de cirurgias que acabam refletindo negativamente no desenvolvimento de suas habilidades cognitivas. A outra metade não consegue ser operada, por falta de condições, de estrutura. Temos 12 a 15% de indivíduos que sofrem a falência de atenção, de perspectivas, de qualidade de vida. Experimentam o fim da euforia de poder viver bem e, inclusive, de cumprir seu crédito com a sociedade.”

Professor Doutor Zan Mustacchi, Diretor Clínico do Centro de Estudos e Pesquisas Clínicas de São Paulo.

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